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Música


Sem bandeiras, Lollapalooza BR chegou a 2016 mais diverso e menos careta

Jotabê Medeiros

Colaboração para o UOL, em São Paulo

2016-03-14T07:00:00

14/03/2016 07h00

A estética falou mais forte do que a política neste Lollapalooza Brasil 2016. Um paradoxo face à situação do país, que saiu pelas ruas neste domingo (13) em protestos contra a corrupção. Somente uma meia dúzia de gatos pingados, solenemente ignorados pela multidão, vestiram as cores das manifestações, em meio a 75 mil pessoas no segundo e último dia de evento no Autódromo de Interlagos, em São Paulo.

O festival chegou a 2016 mais liberado, mais diverso, mais feminista, mais queer e menos careta do que em suas primeiras edições. Sem levantar uma única bandeira e, ao mesmo tempo, levantando todas as bandeiras. O orgulho da identidade estava na plateia e nos palcos.

Metade Tim Maia, metade Janis Joplin (ou Otis Redding, como lembrou um amigo), Brittany Howard, do Alabama Shakes, trouxe um raio renovado de soul ao meio da ameaça de tempestade --literalmente. "You Ain't Alone", às 17h25, foi cantada por ela com um sol de alvorecer de cruzeiro. Diferentemente da última vez que esteve aqui, a cantora tinha um grupo vocal de apoio de ataque pesado e estava mais motivada e alegre. "Aqui é a melhor plateia do mundo", afirmou. Há raras performers do seu calibre hoje em dia, e ela cresce a cada ano.

O divismo veio de barriga tanquinho com Marina and the Diamonds. O rock de rolezinho estava presente com o Twenty One Pilots. O punk de tiozinho bateu ponto com o Bad Religion. E a rave de hip-hop pavimentou um caminho novo para o gênero com a première do grupo sul-africano Die Antwoord, articulando a cultura do gueto em outro diapasão. Africânderes orgulhosos de um legado proletário, de uniforme laranja no começo do show, Ninja e a sinuosa Yo-Landi Vi$$er fizeram o elogio da negação, da rejeição aos códigos do capital e da linha de produção.

O Lollapalooza abriu duas portas: a do humor de smartphone e o desfile de moda de morro (pelo menos quatro morros a superar). "Pensei que as pessoas que estão no Lolla só existiam no Instagram", postou um gaiato no Twitter.

Estruturalmente, o festival precisa de uns truques novos --até as tiaras de flores dos camelôs parecem muito antigas agora. Os vagões para que os fãs tirassem selfies a R$ 10 tinham fila, e o chope a R$ 12 mostrava que o Lolla da crise tinha ficado lá do lado de fora do autódromo. Até a hora da fila do trem ou do estacionamento.