Música

Sem Jerry Adriani, o mundo perde um tremendo boa-praça

Divulgação
O cantor Jerry Adriani, que morreu neste domingo (22), em foto de 1995 Imagem: Divulgação

Jotabê Medeiros

Colaboração para o UOL

23/04/2017 17h06

Vítima de um câncer, Jerry Adriani morreu neste domingo (23), às 15h30, no Hospital Vitória, no Rio. Suas baladas românticas e a voz empostada o fizeram um dos grandes da Jovem Guarda e acalentaram gerações.

Jerry veio de Jerry Lewis, o comediante. Adriani foi um nome italiano escolhido para homenagear sua ascendência romana e dar o toque final. Seu nome de batismo era na verdade Jair Alves de Souza, e chegou a ser um dos maiores ídolos da juventude brasileira em meados dos anos 1960. Misturou o gingado de Elvis e o jeito desafiador de Chuck Berry com um estilo de introspecção sentimental que conquistou gerações de fãs.

Quando morreu George Harrison, dos Beatles, Jerry Adriani, que o tinha conhecido pessoalmente, disse que o mundo perdia “um tremendo boa-praça”. Serve também para Jerry. Tinha 70 anos, dos quais 52 dedicados à música e à tarefa de espalhar bons sentimentos pelos palcos do País. Era bem-humorado e irônico. Em 2010, já um tanto roliço, após cantar "Blue Suede Shoes" na Virada Cultural, ele brincou: "Foi bom para colocar o joelho no lugar".

O cantor Jerry Adriani tinha completado 70 anos em janeiro deste ano. Ele, que sempre se inspirou em Elvis, chegando a imitar o requebrado do ídolo de Tupelo, uma vez estava em um programa de TV quando viu Renato Russo se aproximar. Renato: “Dizem que a gente tem voz muito parecida. Você também acha?”. Jerry riu: “Sim, eu acho”. Riram, e se tornaram amigos. Anos depois, esperava conexão num aeroporto quando Renato passou e gritou: "Jerry, eu sonhei com Elvis e ele me mandou imitar você."

 

Discípulo de Elvis

Neto de imigrantes do Brás, antigo bairro operário de São Paulo, Jerry Adriani aprendeu ainda criança canções italianas com a avó materna e estudou acordeão. Em 1959, iniciou o aprendizado de canto, frequentando conservatórios do ABC Paulista. Participou do coral da Associação Cultural e Artística de São Caetano. Nessa época, a outra forma artística que estava varrendo o planeta era o rock’n’roll, e Jerry se tornou discípulo de Elvis (que homenagearia, em 1990, gravando o disco "Elvis Vive", só com canções do soberano).

 Acervo UH/Folha Imagem
O cantor Jerry Adriani, jovem, em foto dos anos de 1970 Imagem: Acervo UH/Folha Imagem
A diferença entre Jerry Adriani e muitos ídolos populares daquela época é que sabia cantar, era um tenor que vinha de uma escola de grandes exigências técnicas. Ainda no final dos anos 1950, participou de programas de TV e fez filmes. Um dos programas foi "Crush em Hi-Fi", apresentado pela cantora Celly Campello e seu irmão Tony, na TV Record. Nesse programa, entrou em contato com as bandas The Jordans, Jet Blacks e Rebels, conjuntos pioneiros do rock nacional. Em 1962, passou a integrar, como vocalista, o grupo de rock Os Rebeldes.

Em 1964, assinou contrato com a gravadora CBS para interpretar canções em italiano e lançou seu primeiro elepê, "Italianíssimo". Era um momento da indústria musical em que os boleros em espanhol, que deram o tom até então, entravam em declínio. Artistas jovens italianos, como Rita Pavone, alcançavam grande êxito nas rádios brasileiras. No final da carreira, Jerry retomaria a fidelidade a esse roteiro que alternava o rock e o repertório romântico italiano, mas, naquele momento, o pulo do gato consistia em se tornar roqueiro e ídolo adolescente, um herói das groupies, e ele não se fez de rogado.

Jerry se tornaria um dos expoentes do emergente movimento da Jovem Guarda, apresentando um programa concorrente de ninguém menos que o ídolo máximo do gênero, Roberto Carlos. Era um tempo em que os avôs das boys bands estavam em evidência: naquele mesmo ano de 1964, seria lançado aquele que seria seu “rival” na música e no coração das fãs adolescentes, Wanderley Cardoso. Eles se desentenderam por conta do encerramento de um show em Niterói (RJ), mas não eram tão rancorosos. Ocorre que as fãs dos dois se pegavam no tapa e chegavam a ser contidas em delegacias. Tudo estimulado pelos primeiros marqueteiros do show business.

Em 1965, Jerry Adriani gravaria Um Grande Amor, seu primeiro disco em português. Em 1966, apresentou programas de TV, como o Excelsior a Go Go pela TV Excelsior de São Paulo, em parceria com Luiz Aguiar, dedicado ao público jovem. Entre 1967 e 1968, Adriani apresentou, ao lado de quatro artistas (entre elas Betty Faria e Marília Pêra), o programa A Grande Parada, pela TV Tupi.

Acervo UH/Folhapress
O cantor Jerry Adriani, durante apresentação do programa "Excelsior A Go Go", na Rede Excelsior, em 1966 Imagem: Acervo UH/Folhapress
A partir de 1966, com o lançamento de Devo Tudo a Você, deixa definitivamente para trás a imagem de intérprete de standards em italiano e inicia produção própria e em português. Emplaca sucessos como "Vivendo sem Você" e "O Homem Triste". Em 1967, participou dos filmes Essa Gatinha é Minha, e como protagonista em Jerry, a Grande Parada e Em Busca do Tesouro, ambos dirigidos por Carlos Alberto de Souza Barros (1927-2002).

Em 1969, passou a ser acompanhado pela banda baiana Raulzito e os Panteras, de Raul Seixas, que também virou seu produtor (iniciaram no Cine Roma, de Salvador, uma grande amizade). Segundo sua biografia, escrita por Marcelo Fróes, foi Jerry quem fez lobby para convencer o todo-poderoso da gravadora CBS na época, Evandro Ribeiro, a trazer Raulzito para ser seu produtor no Rio de Janeiro. Raul veio, fez um disco que não foi bem-sucedido e voltou para Salvador, mas Os Panteras ficaram acompanhando Jerry.

Em 1972, Jerry lançou o LP Pensa em Mim, com destaque para “Doce, Doce Amor”, parceria de Raulzito e de seu irmão Mauro Motta, talvez o seu maior sucesso da carreira (uma carreira pródiga em sucessos, como Lágrimas nos Olhos, Sheila e Ainda Queima a Esperança). Ainda na década de 1970, arrisca-se em carreira internacional, com turnês por diversos países (Venezuela, Peru, Estados Unidos, México e Canadá, entre outros). Em 1997, gravou duas canções para novelas da Rede Globo: “Engenho”, de Aldir Blanc e Ricardo Feghali (na trilha de Indomada) e “Con Te Partiró”, trilha de Zazá. Em 1999, lança o CD Forza Sempre, em italiano, com canções do notório gêmeo vocal, Renato Russo (que era barítono).

No final da vida, utilizava com grande desenvoltura a extensão da voz de tenor para interpretar e gravar um leque amplo de canções, que ia de You’ve Changed, de Carl Fischer e Bill Carey (sucesso de Nat King Cole e Billie Holiday), a Quando, de Pino Danieli, e Hier Encore, de Charles Aznavour. Também encarava exemplares difíceis da música brasileira, como Lembra de Mim, de Ivan Lins e Vitor Martins, e A Medida da Paixão, de Lenine e Dudu Falcão.
 

 

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