Música

O samba perde um de seus maiores cronistas: Almir Guineto

Anderson Baltar

Colaboração para o UOL

05/05/2017 15h13

Isso a história registra: um novo capítulo na história do samba foi escrito em meados dos anos 1970, quando Beth Carvalho, sempre ávida por novidades, resolve, a convite do ex-volante e treinador do Vasco Alcir Portela, conhecer uma roda de samba realizada à sombra de uma tamarineira, no subúrbio de Ramos, no Rio de Janeiro. Ali, na quadra do bloco Cacique de Ramos, surgiu um verdadeiro manancial de novidades para o centenário ritmo. Seja pelo uso de novos instrumentos, como o banjo e o repique de mão, mas, principalmente, pela quantidade de craques anônimos que ali despontavam. De sua célula-mater, o grupo Fundo de Quintal, saíram grandes sambistas como Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Sombrinha, dentre outros. Porém, poucos tinham tantas facetas quanto Almir Guineto, morto nesta sexta (5).

Almir foi um dos grandes de sua geração. Porém, por circunstâncias diversas, não atingiu o mesmo patamar comercial de seus colegas de grupo e de outros que também por ali andavam e atingiram o estrelato, como Zeca Pagodinho. Porém, é inegável a contribuição de Almir para o samba carioca contemporâneo. Criativo, Almir adaptou um banjo a um braço de cavaquinho e trouxe nova sonoridade para as rodas de samba. Partideiro de mão cheia, era capaz de falar, com a mesma simplicidade, das coisas do coração, das dificuldades da vida e trazer, em forma de samba, verdadeiras crônicas sobre a vida suburbana carioca

Cria do morro do Salgueiro, Almir era filho de dois fundadores da escola de samba que levou o nome do morro para todo o mundo. Seu pai foi o violonista Iraci e sua mãe, a lendária dona Fia (mais tarde imortalizada em “Cadê Ioiô”, de Tio Hélio, gravada pelo Fundo de Quintal), costureira e compositora. Nas rodas de samba do morro, e sobretudo, na quadra da escola de samba, Almir deu seus primeiros passos. Foi diretor de bateria do Salgueiro, campeão do Carnaval de 1969. Deu lugar ao irmão, Lourival, o mestre Louro, que por mais de 30 anos foi o comandante dos ritmistas salgueirenses. Outro irmão, Chiquinho, foi o fundador do grupo Originais do Samba, que, com bom humor e tendo Mussum à frente, fez grande sucesso nos anos 1970. Almir chegou a integrar o grupo por breve período.}

Enturmado com a turma do Cacique de Ramos, liderada por Bira Presidente, fez parte da primeira formação do Fundo de Quintal. Em paralelo, sua verve de compositor tornou-se mais evidente. Beth Carvalho - sempre ela - gravou, de uma tacada só, em 1979, três sucessos com a assinatura de Guineto: “Pedi ao céu", "Tem nada não" e "Coisinha do pai"- esta, que anos depois, seria usada para acordar o robô Pathfinder em Marte. Sua primeira aparição importante como cantor se deu em 1981, com o festival MPB-Shell, da Rede Globo. Cantando “Mordomia”, de Gracia do Salgueiro e Ari do Cavaco, classificou-se em terceiro lugar.

Em 1986, foi um dos pontas de lança de uma nova geração de sambistas que invadiram as rádios na nova “onda” do pagode. Ao lado de Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra, Reinaldo, dentre outros, tornou-se sucesso no país inteiro com canções como “Insensato Destino”, “Meiguice Descarada”, “Caxambu” e “Mel na Boca”. Porém, ao longo dos anos, não obteve o mesmo sucesso que muitos de seus contemporâneos. Os problemas de saúde se sucederam e abalaram a potente voz rouca que sempre foi sua marca registrada. Mesmo assim, não deixou de marcar presença nos palcos e rodas do Rio e de todo o país e era capaz de mobilizar multidões com a força de seus sucessos.

Fragilizado pela diabetes e por problemas renais, Almir Guineto partiu aos 70 anos de idade. Por uma triste coincidência, o partideiro nos deixa no dia em que a “madrinha” Beth Carvalho comemora mais um aniversário. 

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