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Em ato do MTST, Caetano deixa discurso de lado por show de tom amoroso

Marcelo Justo/UOL
Caetano Veloso chega ao Largo da Batata para o ato-show nos 20 anos do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) Imagem: Marcelo Justo/UOL

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

10/12/2017 20h07

No show que encerrou as comemorações de 20 anos do MTST (Movimento dos Trabalhados sem Teto), Caetano Veloso resgatou canções históricas de 1967, que inauguraram o movimento tropicalista e canalizaram o sentimento da contracultura na época da Ditadura.

"Alegria Alegria" e "Tropicália" foram cantadas em uníssono pelo público que tomou o Largo da Batata, em São Paulo, neste domingo (10), para comemorar o aniversário do movimento, mas o paralelo entre a época e o Brasil de 2017 ficou restrito apenas à música.

Sem fazer qualquer discurso, Caetano deixou para a plateia o coro de “Fora, Temer”. No refrão de “Odeio”, canção sobre o fim de um relacionamento, como de praxe o público respondeu: "Odeio você, Temer". Segundo Guilherme Boulos, coordenador do MTST, havia 30 mil pessoas no local.

Reprodução/Facebook
Caetano Veloso com a líder indígena Sônia Bone Guajajara Imagem: Reprodução/Facebook

No momento mais forte da apresentação, enquanto Caetano cantava "Um Índio", a líder indígena Sônia Bone Guajajara fez um discurso a favor dos sem-teto e da demarcação de terras indígenas: "É a nossa missão tirar das mãos das grandes cooperações esse poder podre que eles têm na mão. Nós podemos lutar pelo direito de lutar e existir."

A presença de Guajajara, junto com “Podres Poderes”, cantado em seguida, foi o momento mais explicitamente político de um show que privilegiou mensagens mais amorosas e manifestos à beleza do Brasil, entremeada por músicas de Criolo, Maria Gadú e Péricles. O ex-Exaltasamba cantou "Eu e Você Sempre" e resumiu o tom da apresentação: "Vamos falar de amor, o mundo está precisando."

Enquanto “Tigreza” e “Vaca Profana” eram cantadas como eco do movimento feminista, em peso no show, “Gente”, com o verso “gente é para viver, não morrer de fome”, trazia à tona as preocupações de um artista sempre muito crítico à esquerda, mas que recentemente tem participado de forma mais ativa de movimentos sociais.

“Minha primeira motivação para colocar-me à esquerda se mantém até hoje: a horrenda desigualdade da sociedade brasileira”, ele diz no capítulo que introduz o relançamento de seu livro, “Verdade Tropical”. “E só faz exacerbar-se no clima dos meses recentes, em que o horror dos conservadores finge se dirigir à corrupção quando é nojo e medo dos pobres, pretos e desorganizados, além de impaciência com estes.”

Convidado do show, Criolo pulou no trio durante toda a apresentação e atiçou a plateia: "Uma salva de palmas para o maloqueiro Caetano", pediu. Vestindo trajes de estilo urbano da Lab, marca de roupas do rapper Emicida, o cantor e compositor de 75 anos sorriu.

No final de “Força Estranha”, após os versos “Por isso é que eu canto, não posso parar, por isso essa voz tamanha”, no entanto, olhou para a plateia que o acompanhava e disse incisivamente: “Esta é a voz”.

Show foi impedido na Justiça

Vestindo a camiseta dos 20 anos do MTST, a empresária Paula Lavigne acompanhou todo o ato com o celular na mão.

Ela é o nome por trás da apresentação, que aconteceria no dia 30 de outubro, na ocupação da Frente Povo Sem Medo, em um terreno de quase 70 mil m² que abriga cerca de oito mil famílias em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. Paula e Caetano chegaram a ir ao local, mas foram impedidos se apresentar por determinação da Justiça. Caetano reagiu: "Não sei dizer se foi censura, não sou um técnico. Mas dá impressão de que não é um ambiente democrático", disse. "Pode ser um modo de reprimir uma ação que seria legítima."

Ao lado das atrizes Sonia Braga, Aline Moraes e Marina Person, Paula fez um breve discurso antes da apresentação: "Promessa feita, promessa cumprida. Quero agradecer apenas a juíza que impediu o show em São Bernardo. Você nos deu força, nos deu garra e determinação", disse.
 

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