Turnê de Lady Gaga termina com pouco mais da metade dos ingressos vendidos; entenda

James Cimino
Do UOL, em São Paulo

  • AgNews

    Lady Gaga durante a performance da canção "Born this Way" no Rio de Janeiro (10/11/12)

    Lady Gaga durante a performance da canção "Born this Way" no Rio de Janeiro (10/11/12)

Não adiantou promoção “leve dois e pague um” nem “10 vezes sem juros”. Os ingressos disponíveis para os três shows de Lady Gaga no Brasil tiveram um encalhe de 43%, de acordo com números disponibilizados pela Time for Fun, empresa que trouxe a artista para o país.

A maior lotação foi do show de São Paulo: 50 mil pessoas de 64.995 ingressos postos à venda. Lotação de 77%. Já o maior encalhe foi no Rio. De 90.330 tíquetes disponíveis, apenas 40 mil foram vendidos, ou seja, 44%. Já em Porto Alegre, Gaga vendeu 16 mil das 30 mil entradas oferecidas ao público.

Comparando-se com outras divas pop de sua faixa etária como Katy Perry e Rihanna, que já passaram por São Paulo, os números podem ser considerados um êxito, já que a primeira trouxe cerca de 25 mil pessoas a seu show na Chácara do Jóquei, enquanto a segunda atraiu cerca de 15 mil ao Anhembi. Já Britney Spears, que tem 13 anos de carreira como artista solo, não passou da casa dos 30 mil na mesma arena. No total, no entanto, Katy Perry e Rihanna levaram a melhor devido a suas apresentações no Rock in Rio, que atrai públicos de outros artistas. Na capital fluminense, cantaram para cerca de 100 mil pessoas cada uma.

Na comparação com grandes astros do pop, com décadas de experiência, Gaga fica no meio do caminho. A comparação mais óbvia é Madonna. Sua “Sticky & Sweet Tour”, que passou pelo Brasil em 2008, atraiu mais de 65 mil pessoas a cada um de seus três shows em São Paulo e cerca de 54 mil a cada um dos dois shows no Rio.

Já a banda U2 levou ao Morumbi, em 2011, 270 mil pessoas para três apresentações de sua turnê “360º”, todas esgotadas. O Coldplay, em 2010, teve 60 mil. E no mesmo ano, até Beyoncé, que já fez dueto com Gaga, lotou mais o estádio do Morumbi. Seu público foi de 60 mil em SP, 25 mil em Florianópolis e 50 mil em Salvador (embora na capital baiana tenha havido um encalhe de 20 mil ingressos na época).  No Rio, Beyoncé cantou para 15 mil pessoas, mas sua apresentação foi na casa de shows HSBC, cuja capacidade é a mesma.

O PÚBLICO DOS CONCORRENTES DE GAGA DOS ÚLTIMOS ANOS NO BRASIL*

ARTISTA PÚBLICO TOTAL NÚMERO DE SHOWS LOCAL DOS EVENTOS

MADONNA

303.656 5 SP e Rio

U2

270.000 3 SP

BEYONCÉ

164.000 5 SP, Rio, Florianópolis e Salvador

RIHANNA

131.000 4 SP, Rio (Rock in Rio), Brasília e BH

KATY PERRY

125.000 2 SP e Rio (Rock in Rio)

LADY GAGA
 

106.000 3 SP, Rio e Porto Alegre

COLDPLAY

94.000 2 SP e Rio

BRITNEY SPEARS

50.000 2 SP e Rio

Infantojuvenil

Mas o que houve com Lady Gaga? Superestimativa de público? Ingressos caros demais? Preguiça do público de enfrentar a péssima infraestrutura de transporte até os locais de shows? Procurada, a Time for Fun preferiu não comentar os dados deste balanço. No entanto, o UOL apurou que a empresa considerou a passagem de Gaga pelo Brasil um sucesso em termos comerciais. A reportagem, então, procurou a opinião de profissionais do ramo do entretenimento do país na tentativa de entender o caso.

Horácio Brandão, diretor da Midiorama Comunicação e Imagem, que há 20 anos é responsável pela comunicação de atrações do entretenimento nacional e mundial, compara o público de Gaga ao de atrações infantojuvenis com os Jonas Brothers ou Justin Bieber, que igualmente não ocupariam um local para 90 mil pessoas.

Ela foi de "zero a 100km" muito rápido e talvez isso explique tanto a expectativa gerada em torno de sua vinda quanto a proporção alcançada na venda de seus shows.

Horácio Brandão, sobre Lady Gaga

“Esse numero é para um público de festival que reúne atrações de todos os gostos e mistura axé com metal para dar a ‘liga’. Ainda assim é um número pouquíssimo provável de se conquistar para qualquer titã do entretenimento. Não cobrem isso da Madonna. A menos que ela fizesse um ou dois únicos shows no país, o que não é o caso.”

Além disso, diz Brandão, “a massa não é burra e é quem dita o que vira ou não vira”. Por isso, diz ele, "uma artista que anda em ovos gigantes e se veste de bifes para pode atingir a todos em popularidade, não é capaz de fazer com que um pai queira sacrificar as compras do mês e o curso de inglês dos filhos para comprar quatro entradas, por exemplo, para ir a um show desses".

Já o produtor musical e jurado do programa “Ídolos”, Marco Camargo, diz que Lady Gaga está “longe de ser uma unanimidade” e que “estar na mídia” não significa necessariamente ter todas as pessoas com o propósito de vê-la. “Tenho plena convicção que se trata de uma artista de mídia. Tem seu valor, mas não está, na minha visão, à altura de Beatles, Elton John, U2, Coldplay, Roberto Carlos, Ivete Sangalo, cuja musica fica em primeiro plano e não a performance, luzes e coreografias.”

Fora os aspectos artísticos, ambos concordam que a falta de infraestrutura de transporte e alimentação nos locais de shows, assim como os altos preços cobrados devido à meia-entrada, à carga de impostos e às dificuldades de logística, também contribuem para que o público pense duas vezes antes de se meter nesse tipo de empreitada.

Além disso, o brasileiro já percebeu a banalização desse tipo de atração. “O brasileiro é esperto se acostumou a barganhar, a esperar liquidações e sabe o que leva no ‘carrinho’. A boa verdade é que o ‘repeteco’ se dá por que não há mais ídolos gigantes nascendo, e a Lady Gaga é a prova disso”, conclui Brandão.

Camargo, por sua vez, acredita que deveria haver mais investimento do governo em infraestrutura de shows e que o brasileiro tem preferido as performances de artistas locais. “Acho que nossa língua pátria sempre falará mais alto e não devemos em nada, artisticamente, a nenhum outro país. Nossos artistas são bons o suficiente para lotar não só os espaços destinados a shows, como também aos corações brasileiros.”

*Fontes: Time for Fun, Planmusic, Artplan e São Paulo Futebol Clube



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