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Produtor que "descobriu" o Charlie Brown Jr. diz que banda é imitada até hoje

Reprodução/Facebook
Produtor Tadeu Patolla (à dir.) publica foto ao lado de Chorão, líder do Charlie Brown Jr. Imagem: Reprodução/Facebook

Mariane Zendron

Do UOL, em São Paulo

06/03/2013 15h11

Tadeu Eliezer Patolla foi o primeiro produtor musical a conhecer o Charlie Brown Jr., em 1994, e diz que até hoje, recebe demos de bandas que imitam o grupo de Santos. "O Champignom frequentava a minha casa e trouxe um vídeo com a apresentação do Charlie Brown Jr. O Chorão cantava em um inglês macarrônico".

Depois de convencer Chorão a cantar em português, Patolla mostrou a apresentação para outro produtor, Rick Bonadio, que gostou da banda. Juntos, Patolla e Bonadio produziram o primeiro álbum do grupo, "Transpiração Contínua Prolongada", em 1997.

Ao longo de cerca de 20 anos de trajetória, o grupo vendeu mais de 5 milhões de discos. Em 2009, a banda ganhou um Grammy Latino com o álbum "Camisa 10 Joga Bola Até na Chuva".

Segundo Patolla, a banda influenciou muitos grupos, num período muito fértil para o rock brasileiro, final dos anos 90. "Chorão cantava a verdade dele com bom humor. Tirava um sarro das dificuldades pelas quais passava. É um cara que vai ficar na lembrança pelas músicas e pela atitude transgressora".

Por todas essas características, Patolla diz que até hoje conhece bandas que imitam o Charlie Brown. "Muitas bandas querem copiar, mas quando vejo coisas assim, digo que o Charlie Brown já existe".

No Facebook, Patolla deu outro depoimento sobre o músico. "Chorão, meu brother! Já aprontamos muitas juntos. Fizemos altas músicas, gravamos altos discos legais, rimos, brigamos, pedimos desculpas, nos abraçamos, curtimos, xingamos, tocamos de tudo, até campainha, gritamos, comemoramos. Enfim, a gente se ve lá na frente, brother! Profundamente triste. Você vai fazer muita falta. Você tinha muita coisa para fazer aqui ainda. Fique em paz!", disse.

Morte
Chorão, vocalista da banda Charlie Brown Jr, foi encontrado morto no final da madrugada desta quarta-feira (6), no apartamento onde morava em Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo. O músico, batizado de Alexandre Magno Abrão, completaria 43 anos em 9 de abril.

O corpo do cantor foi levado para o IML (Instituto Médico Legal) para fazer necropsia e o laudo deve sair em 30 dias. O velório será realizado na cidade de Santos, aberto ao público a partir das 20h.
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Segundo o delegado Itagiba Franco, da Polícia Divisionária do Departamento de Homicídios, paramédicos encontraram o músico de bruços no chão da cozinha, com um das mãos machucadas e já sem vida, sozinho em casa. O apartamento que fica no oitavo andar estava revirado, sujo e havia vestígios de sangue.

Bebidas e pó branco também foram encontrados no local, mas o delegado não confirmou se era droga. "Vamos colocar isso no inquérito policial", disse. Trechos de um boletim de ocorrência divulgado pela TV Globo indicam que se tratava de "pequena quantidade de substância branca que aparenta ser cocaína".

Velório e enterro
A previsão é de que o velório seja aberto ao público no no Ginásio Arena Santos a partir das 20h. Antes disso, apenas familiares e amigos terão acesso ao local, que tem capacidade para 5 mil pessoas, segundo informações da Prefeitura de Santos. O enterro acontecerá no Memorial Necrópole, cemitério particular próximo à Arena, a partir das 17h de quinta-feira.

 

Biografia
Chorão formou a banda Charlie Brown Jr. na cidade de Santos, no litoral de São Paulo, na década de 1990. Ele era o único integrante que permaneceu durante todas as fases do grupo, lançando nove discos de estúdio, dois álbuns ao vivo e duas coletâneas. O grupo vendeu mais de 5 milhões de discos e, em 2009, ganhou um Grammy Latino com o álbum "Camisa 10 Joga Bola Até na Chuva".

O último registro da banda é o disco ao vivo "Música Popular Caiçara", que saiu no ano passado e marcou a volta dos integrantes Marcão e Champignon à banda, que haviam deixado o grupo em 2005. A banda estava de férias e o retorno seria durante um show no próximo dia 22 em Campo Grande, no Rio de Janeiro.

A vida pública de Chorão foi marcada por uma série de desentendimentos entre os integrantes da banda e entre outros músicos, como a briga com Marcelo Camelo, integrante do Los Hermanos, em 2007. Chorão agrediu o cantor na sala de desembarque do Aeroporto de Fortaleza e foi detido pela Polícia Federal.

Além de músicas, Chorão também escreveu roteiros, como do filme "O Magnata" (2007), dirigido por Johnny Araújo, e do longa "O Cobrador", que ainda está em produção. Ele também era dono do Chorão Skate Park, em Santos, uma pista de skate indoor.

Repercussão
Ao saber da morte de Chorão, amigos e colegas do universo musical lembraram de seus últimos contatos com ele, sempre destacando sua personalidade explosiva e obstinada. Champignon, baixista da banda Charlie Brown Jr., disse que, apesar das desavenças, ele e Chorão eram amigos. "A gente tinha uma relação profissional. Apesar das muitas brigas, éramos amigos há mais de 20 anos", falou.

"Chorão era um cara diferenciado. Era jovem por dentro, tinha essa rebeldia que o cara novo gosta", destacou o produtor Rick Bonadio, que lançou o álbum de estreia do Charlie Brown Jr. em 1997 e tinha voltado a falar com o músico recentemente para mostrar novas faixas. "O Chorão era um cara de personalidade forte, brigava com as pessoas, entre a gente nunca teve problema. No estúdio, ele era sempre respeitoso. Quando eu pedia três músicas, ele fazia 20. Era fantástico, muito criativo e carinhoso".

O jornalista José Julio Espírito Santo, que trabalhava na gravadora Virgin na época do primeiro disco, lembrou que, apesar de ser "uma pessoa muito amável em certos momentos", o músico parecia sofrer de "um transtorno bipolar sério, e que talvez nunca tenha tratado". "Ele tinha uma relação de amor e ódio com Rick Bonadio e o resto da Virgin. Eu, por algum motivo, era excluído disso e ele sempre se fechava na minha sala para pedir conselhos ou só bater papo e ouvir uns discos."

Johnny Araújo, que dirigiu "O Magnata" e diversos clipes da banda, resumiu: "Ele tinha uma atitude rock'n'roll. Era polêmico por ser verdadeiro, amava música e sabia o que queria. Era preciso ter sensibilidade para entender o jeito dele".

Uma das últimas pessoas a ter contato com Chorão, o radialista Tatola, da UOL 89 FM, recebeu uma visita surpresa do cantor na quinta-feira passada, nos estúdios da rádio paulistana. Durante o programa "Quem Não Faz, Toma", o cantor levou uma música inédita, intitulada "Meu Novo Mundo".

"Ele foi na rádio por acaso, acompanhado do filho [Alexandre]. Ninguém esperava ele lá. Ele disse que tava ouvindo o programa e resolveu subir", contou. O apresentador, que no passado teve desavenças com o cantor, ficou surpreso com a visita e emocionado ao relembrar a cena. "Ele subiu, me abraçou muito, muito mesmo. Me pediu desculpas, e eu pedi para ele deixar para lá".

O cantor permaneceu por cerca de duas horas na emissora, junto de seu filho, Alexandre, de 23 anos, fruto do relacionamento com Thais Lima. Fora do ar, chegou a afirmar que estava muito abalado por causa da separação da última mulher, Graziela Gonçalves, e que estava retomando o apartamento em São Paulo. "O apartamento estava bagunçado porque ele estava reformando e vivia fazendo festas. Não tinha nada de briga. Ele estava triste e se enfiou onde não devia se enfiar."

Pelas redes sociais, diversas personalidades lamentaram a morte de Chorão, entre elas o apresentador Luciano Huck, a ministra da Cultura, Marta Suplicym a apresentadora Ana Hickmann e os ídolos da torcida do Santos Neymar e Robinho.